Esquema de fraude em remédios atinge pacientes com câncer no Brasil

Investigação policial aponta envolvimento de empresários, médicos e advogados em compras pagas pelo Estado
Por: Brado Redação 21.set.2026 às 10h24 - Atualizado: 21.set.2026 às 10h51
Esquema de fraude em remédios atinge pacientes com câncer no Brasil
Reprodução

Yasmin tinha 12 anos e lutava contra um neuroblastoma. Em Cascavel, no Paraná, a farmácia ligada ao grupo investigado venceu a concorrência para fornecer o tratamento. A polícia afirma que cerca de R$ 2,5 milhões saíram dos cofres estaduais e que apenas parte da medicação foi entregue. A menina morreu em fevereiro. A mãe declarou que a esperança da família estava naquele remédio e que todos se viram diante de um golpe.

O empresário Lisandro Henriques Hermes, apontado como peça central da Operação Placebo, declara inocência. No Paraná, ele e um sócio já foram condenados por estelionato. O Tribunal de Justiça do Estado não se manifestou sobre o caso.

No Rio Grande do Sul, a suspeita surgiu na Santa Casa de Caridade de São Gabriel. A equipe de oncologia desconfiou de um lote e acionou a polícia. O laboratório fabricante examinou uma amostra e confirmou que o produto era falso, o que interrompeu a distribuição imediatamente. O material apresentava erros de grafia, diferenças de cor e textura, além de embalagem e bula em idiomas distintos.

Em 29 de junho, a Polícia Civil gaúcha cumpriu 56 mandados de busca. Na residência de Lisandro, que atua na distribuição de medicamentos, os agentes encontraram caixas com sinais de adulteração. Ele foi preso em flagrante e alegou que o material seria destinado à destruição. O delegado Daniel Severo afirmou que os itens não possuíam identificação e que qualquer informação poderia ser impressa nas cartelas.

Maria Jupira tratava um câncer de pulmão com um remédio que não estava disponível no SUS. O médico Fernando Borges da Silva indicou um advogado para que a família solicitasse na Justiça o custeio do medicamento pelo Estado. O laboratório não reconheceu como original o lote apreendido na Santa Casa. Com a apreensão, as filhas relatam que a mãe ficou dois meses sem o tratamento adequado antes de migrar para outras drogas. Maria Jupira morreu aos 57 anos, e a família não sabe se ela chegou a utilizar o lote suspeito antes da descoberta no hospital.

O mesmo médico atendeu Mara Rodrigues, que já havia tratado um câncer e enfrentava uma metástase óssea. Segundo ela, Fernando afirmou que seria necessário um produto importado por não confiar no remédio brasileiro, indicando também um advogado para o processo. A Justiça determinou o pagamento pelo Estado, mas o tratamento não funcionou. Em novembro, o médico mencionou a necessidade de um novo processo e desapareceu. Apenas em julho Mara conseguiu outra consulta na Santa Casa e, no fim de agosto, recebeu uma nova medicação. O filho, Isac Alves Rodrigues, questiona quem fiscalizou o médico e o que sua mãe de fato ingeriu.

A Santa Casa informou que afastou o profissional assim que tomou conhecimento da investigação, ressaltando que o hospital não é alvo da operação e que colabora com as autoridades. A defesa de Fernando negou qualquer prática ilícita e afirmou que ele está à disposição da Justiça. O médico e três advogados foram proibidos de exercer suas profissões.

Para a polícia, o médico identificava os pacientes e receitava drogas não oferecidas pelo SUS, forçando a abertura de ações judiciais para que o Estado custeasse as aquisições. Quase todas as farmácias que apresentavam orçamentos tinham ligação com Lisandro — seja como sócio, por meio de comparsas ou por interpostas pessoas em estabelecimentos já fechados em São Gabriel. De acordo com a delegacia, o grupo era sempre beneficiado nos processos.

Além do prejuízo aos cofres públicos, há um grave risco sanitário, pois os pacientes podem ter recebido produtos de origem desconhecida. Somente neste ano, há suspeitas de adulteração no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro, no Ceará e em Mato Grosso do Sul. A perícia dos remédios apreendidos na Santa Casa ainda não tem data para ser concluída.

Em Mato Grosso do Sul, o marido de Elaine Nogueira tratava um câncer no intestino e tomou um medicamento sem registro na Anvisa. A Defensoria Pública do Estado identificou o esquema, no qual pedidos judiciais de compra elaborados por defensores teriam sido interceptados por golpistas após a liberação dos recursos. A ordem seguia para a Secretaria Estadual de Saúde e, em seguida, para as farmácias interessadas — geralmente lojas de pequeno porte que apresentavam orçamentos abaixo do valor de mercado. A defensora Eni Maria Sezerino Diniz afirmou que muitos itens vinham da Índia, da China, do Paquistão e da Turquia sem registro no Brasil, sem segurança sanitária e em desconformidade com o determinado pela Justiça. A Defensoria também encontrou receitas falsas em nome do marido de Elaine.

Segundo a apuração, dois servidores da Secretaria de Saúde de Mato Grosso do Sul encaminhavam os pedidos às farmácias e lucravam com o superfaturamento. Em um dos processos, três meses de tratamento constavam pelo valor de R$ 100 mil, enquanto o custo real do medicamento variava entre R$ 1.200 e R$ 1.600. Entre 2021 e 2025, as empresas envolvidas movimentaram mais de R$ 70 milhões, de acordo com dados da Receita Federal. Os dois funcionários foram afastados de seus cargos.

No Ceará, uma distribuidora que forneceu medicação a Luiz Carlos foi interditada no ano passado sob suspeita de falsificação. O paciente morreu em maio.

A Polícia Civil dá prosseguimento às investigações, enquanto as famílias cobram respostas sobre o que realmente foi entregue aos pacientes e sobre a responsabilidade da fiscalização em todo o percurso entre a receita médica, a decisão judicial e a entrega do tratamento.



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