Ex-ministro de Bolsonaro recebeu R$ 11 milhões do Banco Master

Repasses ocorreram enquanto ele atuava no crédito consignado ligado ao banco investigado, segundo o Intercept Brasil
Por: Brado Redação 16.jun.2026 às 14h32 - Atualizado: 16.jun.2026 às 14h43
Ex-ministro de Bolsonaro recebeu R$ 11 milhões do Banco Master
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Um ex-ministro do governo Jair Bolsonaro e empresas ligadas a ele receberam cerca de R$ 11 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025, conforme documentos obtidos pelo Intercept Brasil. Os valores foram identificados em declarações fiscais enviadas à Receita Federal e analisados durante investigações parlamentares no Senado.

Ronaldo Vieira Bento, que comandou o Ministério da Cidadania de março a dezembro de 2022, deixou o cargo e rapidamente passou a atuar no setor financeiro. Ele ocupou cargos de direção em instituições controladas pelo grupo de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master — banco investigado pela Operação Compliance Zero da Polícia Federal por suspeitas de fraudes, conforme a reportagem do Intercept Brasil.

Após deixar o governo, Bento tornou-se diretor-presidente do Banco Pleno, antigo Banco Voiter adquirido pelo Master em 2024 e revendido em 2025. Ao mesmo tempo, ele administrou a Mettacard Administradora de Cartões, empresa licenciada pelo Master que oferece cartões de benefício consignado para servidores públicos, aposentados e pensionistas, de acordo com o Intercept Brasil.

Esses cartões funcionam como linha de crédito com parcelas descontadas diretamente na folha de pagamento, geralmente a juros mais baixos. A Mettacard mantinha convênios com prefeituras de sete municípios, institutos de previdência e órgãos como o Tribunal de Contas do Paraná e o governo estadual.

Dos R$ 11 milhões repassados pelo Master, R$ 773 mil foram depositados diretamente na conta pessoal de Bento. O restante foi direcionado a empresas nas quais ele era sócio ou administrador. A Meta Consultoria, da qual Bento é sócio desde 2023, recebeu R$ 6,2 milhões em 2025. A firma, sediada em Brasília, oferece consultoria empresarial e apoio administrativo.

Em novembro de 2024, a Meta se associou à CLT Participações para criar a Beta Serviços Financeiros, sociedade encerrada em março de 2026. Nesse período, a CLT recebeu R$ 1,2 milhão do banco, enquanto a Mettacard, sob gestão de Bento entre agosto e dezembro de 2024, captou R$ 2,98 milhões.

O Banco Pleno entrou em liquidação extrajudicial determinada pelo Banco Central em fevereiro de 2026 por problemas de capital, liquidez e descumprimento de normas, com bens de Bento e outros ex-dirigentes bloqueados como medida cautelar.

Bento assumiu o Ministério da Cidadania justamente no momento em que o governo ampliou o crédito consignado para beneficiários do Auxílio Brasil. Embora a medida provisória tenha sido editada pelo antecessor João Roma, a regulamentação e execução ocorreram durante sua gestão. Ele defendia a iniciativa como proteção contra agiotas, com juros limitados a 3,5% ao mês.

No entanto, auditoria da Controladoria-Geral da União apontou descontos indevidos e forte concentração de contratos em outubro de 2022, às vésperas do segundo turno das eleições. Dois anos depois, Bento passou a comandar a Mettacard, que operava no mesmo segmento de consignados para servidores. Em novembro de 2025, o governo do Paraná suspendeu novos descontos em folha para cartões da Mettacard e da Credcesta após denúncias de fraudes e endividamento excessivo.

Apesar das revelações do Intercept Brasil, Bento foi pouco investigado no Legislativo. Citado na CPMI do INSS e na CPI do Crime Organizado, os pedidos para convocá-lo ou quebrar sigilos não avançaram.

Em nota enviada ao Intercept Brasil, a assessoria do ex-ministro afirmou que os valores referem-se a pagamentos por serviços de assessoria prestados ao grupo financeiro, devidamente declarados ao Fisco e compatíveis com o mercado, sem qualquer irregularidade.



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