A Polícia Federal apontou coincidência entre o dinheiro que circulou na Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse, e emendas do deputado federal Mario Frias a organizações presididas por Karina Gama, também dona da produtora. O relatório, com sigilo retirado nesta quinta-feira, 10 de setembro, trata de suspeita de desvio de verba pública.
O Instituto Conhecer Brasil, chefiado por Karina, recebeu R$ 2 milhões em duas emendas de Frias. Os investigadores avaliam que parte desses recursos pode ter pago hospedagem de alto padrão, refeições e outras produtoras durante as gravações da cinebiografia de Jair Bolsonaro.
A Go Up movimentou R$ 19.033.071 entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025. As filmagens em São Paulo ocorreram de 20 de outubro a 7 de dezembro. Para a PF, o calendário e o tipo de despesa se cruzam.
No mesmo intervalo, a NTT Brasil, de Heric Dias, mandou R$ 750 mil à Go Up. O valor se aproxima dos R$ 700 mil que a Dinâmica Editora e o Instituto Super Poder Educacional, do mesmo grupo, teriam recebido via ICB com dinheiro de emenda. A polícia vê indício de que a verba originalmente ligada a contratos do instituto tenha chegado à produtora depois de contratações com sinal de fraude e da transferência da NTT.
Frias, além das emendas, transferiu R$ 645,4 mil da própria conta à Go Up. O salário dele na Câmara é de R$ 44.008,52. A PF questiona o lastro para esse envio em menos de 60 dias.
O Coaf, reproduzido na decisão de Flávio Dino, registrou cerca de R$ 19 milhões na empresa no período — R$ 8,9 milhões a crédito e R$ 10 milhões a débito. Entre os principais remetentes estão Frias e Marcello Lopes, ex-marqueteiro de Flávio Bolsonaro, que enviou R$ 1 milhão à Go Up. Lopes saiu da pré-campanha depois da repercussão do encontro de Flávio com Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, apontado como financiador de cerca de R$ 61 milhões do filme antes de ser preso.
Marcos Pollon (PL-MS) e Bia Kicis (PL-DF) também assinaram emendas para a Academia Nacional de Cultura, outra entidade de Karina: R$ 1 milhão e R$ 150 mil, respectivamente. Esses valores não foram pagos. A PF destaca que os dois foram eleitos por Mato Grosso do Sul e pelo Distrito Federal, mas as emendas apontavam São Paulo, o que pode ferir a regra de vínculo entre origem do parlamentar e destino da verba.
Dino autorizou a Operação Make Up, da PF com a Controladoria-Geral da União. Foram 49 mandados de busca em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal, contra Frias, Karina, o ICB, a ANC e outros investigados. O ministro também proibiu Frias de deixar o país e de falar com os demais alvos.
A TV Globo procurou o deputado e a defesa de Karina e não obteve resposta até a publicação da reportagem original.
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