Ação batizada de Vectura Corrupta foi deflagrada nesta quinta-feira (17) pela Polícia Civil de São Paulo, com apoio do Gaeco e do Ministério Público Estadual. Agentes saíram para cumprir 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão. O objetivo é desmontar o que as autoridades descrevem como infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no poder público e no sistema de ônibus da capital.
Além do ex-vereador, foram detidos Levi dos Santos Oliveira, que presidiu a SPTrans, e Danilo Marco Morgado Silva, que disputou a Prefeitura de Praia Grande em 2024 e tentava se candidatar a deputado estadual, embora o registro tenha sido cassado. Segundo a polícia, Danilo já havia figurado como alvo de mandado de busca na Operação Decurio. Nesta nova etapa, investigadores apontam um forte vínculo com integrantes da facção e indícios de que a campanha à prefeitura teria sido financiada pela organização.
Levi, de acordo com o inquérito, não aparece como interlocutor direto de José Daniel Satilite, conhecido como Alemão e apontado como um dos eixos do esquema. Ainda assim, os dois teriam se encontrado periodicamente para tratar de interesses da facção em empresas de transporte, sobretudo depois da Operação Fim da Linha, de 2024.
A investigação lista 12 companhias de transporte coletivo que seriam controladas, direta ou indiretamente, pelo PCC: Viação Transcap, Alfa Rodobus, Transwolff, A2 Transportes, Imperial Transportes, Move Bus, Pêssego Transportes, Allianz Transportes, Transunião, Qualibus Transportes, Norte Bus e Spencer Transportes. Parte delas já havia surgido em apurações anteriores. A Transwolff, por exemplo, foi alvo da Operação Fim da Linha. Seu então presidente, Luiz Carlos Efigênio Pacheco, o Pandora, acabou preso sob suspeita de ligações com a facção. Depois daquela operação, Alfa Rodobus e Sancetur assumiram serviços que antes eram da Transwolff e da Upbus.
Outra linha da Vectura Corrupta examina o núcleo chamado Sintonia dos Gravatas, formado por advogados que, segundo a polícia, teriam ultrapassado o exercício regular da profissão para atender à organização. Entre os investigados nessa frente estão Cícero José dos Santos Filho, Eduardo Medeiros e Milton Mello Milreu. Escritórios e contas bancárias teriam servido para reuniões, movimentação de recursos e outras atividades de interesse da facção. Alemão é descrito como integrante do PCC e intermediário entre empresários, advogados, políticos, pessoas próximas a políticos e membros da organização.
Milton Leite (União Brasil) não foi localizado quando a polícia chegou à residência para cumprir o mandado de prisão. Diante do que encontraram no imóvel, os agentes passaram a considerá-lo foragido e permaneceram no local para realizar a busca e apreensão. Informações colhidas na diligência indicam que ele esteve em casa até a tarde de quarta-feira (16). Uma funcionária relatou que o ex-vereador saiu à noite para um compromisso de campanha.
Em nota, Milton Leite afirmou estar viajando, negou a condição de foragido e disse que se apresentará às autoridades em até 24 horas. “Vou provar minha inocência em todas as acusações”, declarou.
O pedido que fundamentou a operação cita o ex-presidente da Câmara como responsável direto pela operação de algumas das empresas que, segundo a apuração, estariam sob controle da facção. Há ainda depoimentos de policiais militares prestados em procedimento no Tribunal de Justiça Militar, segundo os quais ele seria o dono de fato da Transwolff. Investigadores sustentam, com base em interceptações e em outras peças, que decisões estratégicas ligadas a essas companhias dependeriam do conhecimento ou da chancela política de Milton Leite.
Ele deixou o Legislativo municipal no ano passado, após sete mandatos como vereador e quatro presidências da Câmara. Hoje, preside o União Brasil na capital e, em julho, foi eleito presidente estadual da Federação União Progressista, que reúne União Brasil e Progressistas.
Questionado se a operação poderia interromper o transporte na capital, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou que não há risco. Disse que a prefeitura interveio na Transwolff em 2024 e, depois, decretou a caducidade do contrato. “Essa empresa é administrada pela prefeitura”, afirmou.
A Vectura Corrupta é desdobramento de apurações anteriores. Em agosto de 2024, a Operação Decurio começou após a apreensão de 30 quilos de drogas em Itaquaquecetuba. Dados extraídos do celular da mulher de um líder da facção levaram à identificação de chefes da Sintonia Final e à descoberta de uma fintech que chegou a movimentar cerca de R$ 8 bilhões. Naquela fase, também surgiram os primeiros sinais do braço político da organização, com campanhas de vereadores apontadas como patrocinadas pela facção e servidores comissionados em prefeituras.
Em abril de 2026, a Operação Contaminatio mirava a estrutura da fintech usada para tentar se infiltrar em prefeituras, gerenciar tributos e taxas e manter contato direto com munícipes. Na ocasião, a polícia desarticulou uma rede de doleiros e operadores de criptoativos usada na lavagem de dinheiro e prendeu um ex-vereador de Santo André.
As autoridades afirmam que o material reunido indica possível infiltração da organização criminosa no sistema de transporte público da capital, com atuação de integrantes e intermediários do PCC em empresas e em procedimentos licitatórios. Milton Leite e os demais alvos ainda não foram julgados. As acusações são objeto de investigação, e caberá à Justiça decidir sobre a responsabilidade de cada um.
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