A conquista da maioria nas duas Casas do Congresso pelos democratas nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas na terça-feira (3), tende a limitar a capacidade do presidente Donald Trump de colocar sua agenda econômica em prática. Com o controle da Câmara e do Senado, a oposição ganha força para barrar propostas envolvendo gastos públicos, impostos e regulamentações, cenário que pode provocar reflexos nos mercados internacionais e, consequentemente, na economia brasileira.
Até a última atualização da apuração, os democratas haviam garantido 228 cadeiras na Câmara dos Representantes, número superior às 218 necessárias para alcançar a maioria, além de 54 assentos no Senado. O resultado confirma uma chamada “onda azul” e ocorre em meio à desaprovação de 66% da gestão Trump, segundo pesquisa Reuters/Ipsos. Economistas avaliam que o enfraquecimento dos republicanos reduz a margem de atuação do presidente para aprovar medidas e amplia a fiscalização sobre o Executivo. Trump mantém o poder de veto, mas os democratas poderão dificultar a tramitação de projetos e, no Senado, exercer influência sobre indicações para cargos estratégicos, como no Federal Reserve e na Suprema Corte.
No Brasil, os principais impactos podem ocorrer por meio dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano e da variação do dólar. As decisões do Congresso relacionadas às contas públicas influenciam diretamente as expectativas dos investidores. Caso haja uma percepção de aumento dos gastos sem receitas suficientes para compensá-los, os juros dos títulos americanos poderão subir, tornando os Estados Unidos mais atrativos para investidores e reduzindo o fluxo de capital destinado aos países emergentes. Esse movimento tende a pressionar o dólar diante do real, elevar os juros futuros brasileiros e afetar as expectativas em relação à taxa Selic.
Marcos Praça, diretor de Análise da ZERO Markets Brasil, avalia que uma vitória republicana daria a Trump maior liberdade para promover cortes de impostos, flexibilizar regulamentações e adotar políticas comerciais mais rígidas. Caso essas iniciativas ampliassem o déficit público, poderiam pressionar a inflação e os juros de longo prazo nos Estados Unidos, fortalecendo o dólar frente ao real, elevando as taxas futuras no Brasil e prejudicando o desempenho da bolsa, principalmente de empresas endividadas e setores dependentes de crédito, como varejo e construção. Com o avanço democrata, a expectativa é de maior resistência a novos aumentos de gastos, redução da pressão sobre os juros americanos e aumento da atratividade dos mercados emergentes. Esse cenário poderia favorecer a entrada de recursos no Brasil, fortalecer o real e reduzir as taxas futuras. Os efeitos, entretanto, dependerão do ambiente político, já que disputas orçamentárias e conflitos entre o Executivo e o Congresso podem provocar instabilidade nos mercados.
A relação entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva também aparece como um elemento de incerteza. Após a recente vitória do petista, investidores passaram a considerar a possibilidade de novos atritos entre os governos, semelhantes aos episódios envolvendo tarifas comerciais e a Lei Magnitsky. Com os democratas no comando do Congresso, eventuais novas medidas comerciais de Trump poderão encontrar maior resistência, além de estimular reações legislativas diante de possíveis tensões com o Brasil. Gustavo Sung, da Suno Research, associa o desgaste político de Trump à insatisfação da população com o custo de vida, especialmente diante dos preços dos combustíveis, que superaram US$ 4 por galão de gasolina e US$ 6 por galão de diesel. Já Andressa Durão, do ASA, avalia que o enfraquecimento republicano amplia a fiscalização sobre o governo e reduz a capacidade do presidente de aprovar determinadas iniciativas.
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