Agentes da Polícia Federal cumpriram, nesta quinta-feira (6), 25 mandados de busca e apreensão em Mato Grosso, São Paulo, Rondônia e Ceará. A ação, batizada de Operação Heritage, investiga o possível desvio de R$ 308,1 milhões que saíram dos cofres públicos estaduais após um acordo de restituição tributária firmado, em 2024, com a empresa de telefonia Oi.
O principal investigado é o ex-governador Mauro Mendes, que deixou o cargo para disputar o Senado. Também figuram na lista o deputado federal Fábio Garcia, o desembargador Ricardo Gomes de Almeida e o conselheiro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Ulisses Rabaneda. As ordens judiciais partiram do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, motivadas por representações apresentadas pelo ex-governador Pedro Taques, adversário de Mendes na disputa eleitoral.
A origem do dinheiro remonta a uma cobrança antiga. Desde 2009, a Oi exigia do governo de Mato Grosso a devolução de valores de ICMS considerados indevidos. O acordo firmado em abril de 2024 resultou no pagamento de R$ 308,1 milhões. Segundo a apuração, esses recursos não seguiram o destino previsto e foram transformados em direitos creditórios.
O montante foi dividido igualmente entre dois fundos de investimento — Royal Capital e Lotte Word — ambos administrados e custodiados pelo Banco Master. A partir daí, o fundo Lotte Word passou a comprar cotas de outras estruturas, como Golden Bird e Coliseu, ligadas a pessoas próximas ao círculo de Mauro Mendes. A Polícia Federal descreve o mecanismo como "fundos em cascata": camadas sucessivas que dificultam o rastreamento da origem e do destino final do dinheiro.
Entre os beneficiários apontados pela investigação estão empresas de Luis Antonio Mendes, filho do ex-governador, do próprio deputado Fábio Garcia, de Fernando Robério Garcia, pai do parlamentar, e de outros aliados políticos. O advogado que conduziu o acordo com a Oi foi Ricardo Almeida, nomeado desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso pelo próprio Mendes, em novembro de 2025.
Os crimes sob investigação incluem organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro, delitos contra o Sistema Financeiro Nacional e uso indevido de informação privilegiada. Além das buscas, o ministro Flávio Dino determinou o bloqueio e a indisponibilidade de bens no valor de até R$ 316 milhões, bem como a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados.
Até o momento, Mauro Mendes e Fábio Garcia não se pronunciaram. A Oi e o Banco Master também permaneceram em silêncio. Ricardo Almeida declarou que a apuração se refere apenas à sua atuação anterior como advogado e afirmou que sofreu apenas a retenção do passaporte, sem que houvesse mandado de busca e apreensão contra ele. A defesa de Ulisses Rabaneda sustentou que os fatos dizem respeito exclusivamente ao período em que ele prestava serviços jurídicos, antes de ingressar no Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
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