Uma venda fraudulenta de minério destapou um esquema de lavagem de dinheiro ligado à extração ilegal de cassiterita na Terra Indígena Yanomami, em Roraima. A segunda fase da Operação Disco de Ouro II foi deflagrada nesta quarta-feira, 23 de setembro, pela Polícia Federal.
Tudo começou quando uma companhia suíça de metais formalizou denúncia após pagar cerca de US$ 48 milhões — equivalentes a aproximadamente R$ 247 milhões — e receber pó de brita no lugar da cassiterita contratada. A brita é uma rocha usada na construção civil e vale muito menos do que o chamado ouro negro, minério empregado na produção de estanho.
A investigação aponta Diego Possebon como o principal articulador do grupo. Também foram alvos o irmão Matheus Possebon, que à época era empresário do cantor Alexandre Pires, e o próprio artista, além de uma produtora musical ligada a ele. Segundo a PF, a empresa e o cantor teriam recebido R$ 31 milhões de sociedades apontadas como parte da organização, valores que teriam servido para fracionar, ocultar e dissimular recursos da fraude.
A cassiterita teria origem ilegal na Terra Yanomami, mas ganhava aparência de legalidade por meio da mineradora Betser, de Christian Costa dos Santos, que possuía autorização de extração em Itaituba, no Pará. Uma empresa norte-americana intermediou a compra para a suíça a partir de 2021, em articulação com Diego.
Em fevereiro de 2022, a PF apreendeu mais de 100 toneladas de cassiterita em instalações da Betser em Roraima. Sem o minério para honrar o contrato, o grupo teria enviado brita para receber o pagamento antecipado.
Em abril de 2023, um representante da empresa suíça veio ao Brasil, visitou armazéns em Manaus e acompanhou o carregamento. Diego Possebon e Christian Costa estavam no local. Investigadores afirmam que eles simularam o empacotamento e emitiram laudos e testes químicos falsos, que apontavam teor de até 75% de estanho.
Com base nesses documentos, a suíça transferiu os US$ 48 milhões. Deste total, US$ 20,4 milhões teriam ido à Metalsur, de Canoas (RS), pertencente a um amigo de Diego, por meio de um contrato de empréstimo considerado falso. Outros US$ 22,2 milhões teriam sido enviados à Empire Strong International, nos Estados Unidos, que teria redistribuído parte do dinheiro por operações de dólar-cabo para contas ligadas a Diego. Duas empresárias que controlam a firma americana, após a primeira fase da operação em 2023, perceberam o vínculo com a extração ilegal e também denunciaram o caso. Elas figuram como colaboradoras premiadas.
Um grupo de WhatsApp chamado “GRUPO CONTA USD” teria sido usado por Diego para enviar comprovantes de depósitos em dólares e ordenar contrapartidas em reais no Brasil, inclusive em contas da empresa de Alexandre Pires.
Um mês depois da visita ao Brasil, a suíça abriu os contêineres, encontrou areia e acionou a Polícia Federal. A ação desta quarta-feira cumpriu 12 mandados de busca e 17 ordens de sequestro de bens e valores, expedidos pela 4ª Vara da Justiça Federal em Boa Vista. Não houve prisões. Os investigados podem responder por lavagem de dinheiro, organização criminosa, falsidade ideológica e operação irregular de instituição financeira, conforme a participação de cada um.
A defesa de Alexandre Pires afirmou que o cantor nunca teve envolvimento com garimpo ou extração de minério, sobretudo em área indígena, que foi surpreendido pelo desdobramento da operação e que jamais cometeu ilícito, reiterando confiança na Justiça.
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