Instituto ligado a Mendonça recebeu R$ 5 milhões de ex-sócio de Vorcaro

Cedro Participações, de Lucas Kallas, fechou mútuo conversível de R$ 5,9 milhões com o Iter em 2024; entidade diz que interrompeu o contrato antes de o ministro virar relator do Master
Por: Brado Redação 17.set.2026 às 17h24
Instituto ligado a Mendonça recebeu R$ 5 milhões de ex-sócio de Vorcaro
Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

O Instituto Iter, vinculado a André Mendonça, recebeu R$ 5,2 milhões da Cedro Participações, holding de mineração do empresário mineiro Lucas Kallas, que foi parceiro de negócios de Daniel Vorcaro. O acordo, de abril de 2024, era um mútuo conversível: o dinheiro emprestado podia virar participação no instituto ou ser devolvido. O contrato totalizava R$ 5,9 milhões.

O Iter interrompeu os repasses e começou a devolver o valor em janeiro de 2026. No mês seguinte, Mendonça foi sorteado relator das investigações do Banco Master. A entidade diz que encerrou o empréstimo porque já tinha sustentabilidade financeira. Um aditivo antecipou o vencimento da dívida, com juros pela Selic. Até agora, cerca de 5,3% do total foi pago.

Quem negociou foi o presidente do Iter e ex-ministro da Educação Victor Godoy Veiga, com Carlos Adel de Freitas e Eduardo Soares de Couto, da Cedro. O instituto afirma que Mendonça e Kallas não trataram dos termos. O dinheiro deveria ir só para estruturar e manter as atividades da entidade. O Iter diz que cumpriu o contrato, não distribuiu lucro a acionistas e aplicou tudo na conta da pessoa jurídica, com acompanhamento contábil.

A entidade nega participação de Vorcaro nas tratativas e diz que não conhecia outras relações empresariais da Cedro ou de Kallas. A Cedro, por sua vez, afirma que o banqueiro nunca teve vínculo societário com a holding ou controladas. Diz que ter ações em empresas de capital aberto, ao lado de fundos e bancos como BNDES e BDMG, não configura sociedade comercial.

Mendonça deixou o Iter no início de setembro. O instituto afirma que ele nunca recebeu dividendo ou participação nos resultados e que só atuava como docente. Procurado, o ministro não se manifestou.

Kallas concentra mineração, agronegócio e logística. A Cedro declara faturamento anual de R$ 2,5 bilhões. No fim de 2023, tinha 8% da biotecnológica Biomm. Em fevereiro de 2024, a gestora WNT, ligada a Vorcaro e Nelson Tanure, comprou ações da mesma empresa; o grupo do banqueiro chegou a 25% em janeiro de 2025. Kallas também ficou cinco anos na Latache Capital e comprou 33% em 2025. A gestora era acionista da Oncoclínicas, que aplicou R$ 478 milhões em CDBs do Master e viu as ações despencarem após a liquidação do banco, em novembro de 2025. A Cedro saiu da Biomm e da Latache em abril de 2026 para focar mineração.


E-mails no celular de Vorcaro mostram viagem dos dois a Caracas, no fim de novembro de 2023, para prospectar petróleo. Ficaram em suítes separadas; o banqueiro pagou US$ 23 mil (cerca de R$ 121 mil). Três dias após a última diária, em 4 de dezembro de 2023, os dois entraram no Palácio do Planalto no mesmo minuto, às 15h43. Kallas diz que viagens fazem parte da agenda regular e que esteve em mais de 17 países no ano passado. Ele e a Cedro não são investigados na Operação Compliance Zero.

Em junho, a PF indiciou Kallas por irregularidades na Mina Granja Corumi, na Serra do Curral, em Belo Horizonte. A polícia aponta exploração ilegal de minério de 2014 a 2018, além de crimes ambientais, lavagem, corrupção ativa e tráfico de influência. Há menção breve à Reag Investimentos, gestora investigada por ligações com o Master e o PCC. A defesa diz que o caso reaquece fatos antigos já arquivados e que Kallas saiu do negócio em 2017, antes de fundar a Cedro.

Mesmo sob investigação, o empresário integrou o Conselhão da Presidência. Lula o elogiou em 2025 no Porto de Itaguaí. No inquérito que subiu ao STF em fevereiro, Kallas é defendido pelo escritório da família de Alexandre de Moraes — Viviane e os filhos Alexandre e Giuliane Barci. O processo voltou à Justiça Federal depois de afastada a suspeita contra pessoa com foro.

Mendonça e Vorcaro se encontraram pelo menos uma vez, em 14 de março de 2025, na sede do Iter, segundo mensagens do celular do banqueiro. O encontro foi articulado pelo advogado Ciro Rocha Soares, pelo deputado Cezinha de Madureira (PL-SP) e pelo advogado Marcus Vinicius. O ministro diz que o tema foi precatórios. No mesmo mês, recebeu advogado de Vorcaro no gabinete do STF sobre a STP 976, então com vista de outro ministro. Mendonça afirma ter votado contra a tese do banqueiro. O plenário foi unânime nessa linha.

Houve tentativa, por terceiros, de incluir Vorcaro em evento do Iter em Belo Horizonte, em junho de 2025. Victor Godoy, segundo o instituto, barrou o convite. Não houve participação do banqueiro.



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