Bolívia rompe hegemonia da esquerda e define segundo turno com candidatos da oposição

Surpresa eleitoral marca nova fase política no país
Por: Brado Jornal 18.ago.2025 às 08h16
Bolívia rompe hegemonia da esquerda e define segundo turno com candidatos da oposição
Foto: Martin Bernatti e Rodrigo Urzagasti/ AFP
Após duas décadas de domínio do MAS (Movimento ao Socialismo), liderado pelo ex-presidente Evo Morales, a Bolívia terá um segundo turno presidencial sem a presença da esquerda, uma mudança histórica. Os candidatos Rodrigo Paz Pereira, senador de Tarija, e Jorge “Tuto” Quiroga, ex-presidente, ambos da oposição, disputarão a Presidência em 19 de outubro, conforme resultados preliminares divulgados no domingo (17).

Os números, anunciados por volta das 22h20 (horário de Brasília), indicaram Paz Pereira com 32,08%, seguido por Quiroga com 26,94%. Samuel Doria Medina, que aparecia como favorito nas pesquisas, ficou em terceiro com 19,93%. Na esquerda, Andrónico Rodríguez obteve 8,11%, e Eduardo del Castillo, 3,14%. Os votos nulos, apoiados por Evo Morales, alcançaram 19%. A apuração final deve ser concluída em até sete dias.

Paz Pereira, que não figurava entre os favoritos, surpreendeu ao liderar a votação. Nascido na Espanha durante o exílio de seus pais no regime militar, ele busca repetir o legado de seu pai, Jaime Paz Zamora, presidente entre 1989 e 1993. Já Quiroga, acompanhando seu vice, Juan Pablo Velasco, em Santa Cruz de la Sierra, celebrou o resultado: “É uma noite histórica, para todos os bolivianos, demos um passo gigantesco para um amanhã melhor. Ganhou a democracia boliviana.”

Samuel Doria Medina, em terceiro lugar, anunciou apoio a Paz Pereira: “Ao longo da campanha, eu disse que, se não chegasse ao segundo turno, apoiaria quem viesse primeiro, se não fosse o MAS. Bem, esse candidato é Rodrigo Paz, e eu mantenho minha palavra.”

A esquerda, fragmentada por disputas internas, sofreu uma derrota significativa. O MAS, no poder desde 2006 com Evo Morales, enfrentou divisões entre o ex-presidente e o atual, Luis Arce, que optou por não concorrer à reeleição. Evo, impedido de se candidatar e rompido com Arce e Rodríguez, defendeu o voto nulo, afirmando nas redes sociais: “Se não fosse por seu aliado Luis Arce, que roubou nossa sigla [o MAS] e baniu o maior movimento político do país, teríamos vencido essas eleições com uma margem esmagadora. O voto nulo expressa a nossa rejeição a uma eleição fraudada.”

Andrónico Rodríguez, presidente do Senado e ex-aliado de Evo, enfrentou hostilidade ao votar em Entre Ríos, Cochabamba, onde foi alvo de xingamentos e pedras, conforme vídeos nas redes sociais. “Claramente são grupos organizados que, de forma intolerante, no momento em que cheguei, queriam evitar que eu votasse. Ainda assim, a população se impôs e controlou a situação”, declarou.

A crise econômica foi decisiva na eleição. Com reservas em dólares quase esgotadas, queda nas exportações de gás, inflação de 25% em 12 meses (julho) e escassez de combustíveis e produtos básicos, o descontentamento popular abriu espaço para a direita. Paz Pereira destacou a necessidade de mudança: “A Bolívia precisa de estabilidade, precisa de governabilidade, mas precisa acabar com o ‘Estado de bloqueio’ para que o Estado trabalhe para nós e nós para o Estado, para acabar com a injustiça, a corrupção.” Quiroga complementou: “Esta talvez seja a eleição mais importante em 40 anos. É a oportunidade que a democracia nos dá: deixar para trás a divisão, o confronto, com a estabilidade econômica, com um futuro diferente.”

O segundo turno, inédito desde a Constituição de 2009, ocorrerá porque nenhum candidato obteve mais de 50% dos votos ou 40% com 10 pontos de vantagem. O vencedor assumirá em 8 de novembro para um mandato de cinco anos, enfrentando desafios como a negociação da exploração de lítio e a formação de alianças no Parlamento.

No dia da votação, a ausência de transporte público em La Paz, onde circular de carro exigia autorização prévia, dificultou o acesso às urnas. As seções eleitorais, abertas das 9h às 16h (horário de Brasília), atenderam eleitores em 3.733 locais, com voto obrigatório. No sábado (16), o governo Arce rebateu acusações de fraude, negando qualquer “guerra suja” nas redes sociais.


📲 Baixe agora o aplicativo oficial da BRADO
e receba os principais destaques do dia em primeira mão
O que estão dizendo

Deixe sua opinião!

Assine agora e comente nesta matéria com benefícos exclusivos.

Sem comentários

Seja o primeiro a comentar nesta matéria!

Carregar mais
Carregando...

Carregando...

Veja Também
Vitória do 13
O resultado das urnas confirma a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na disputa pela Presidência da República.
Celina Leão é reeleita governadora do Distrito Federal
Governadora do PP vence Leandro Grass no segundo turno e permanecerá à frente do Governo do DF pelos próximos quatro anos.
Câmara de Salvador gasta quase R$ 17 milhões com tecnologia, mas servidores relatam falhas em sistemas e equipamentos
Despesas de janeiro a agosto de 2026 somam R$ 16,96 milhões; relatos apontam computadores lentos, quedas de rede, programas que travam e problemas nas catracas de acesso ao prédio
Flávio Bolsonaro lidera votação parcial no exterior; Lula vence em países da Ásia e Oceania
Boletins de urna do segundo turno apontam vantagem de Flávio Bolsonaro na soma parcial dos votos divulgados; Lula venceu na Nova Zelândia, na China, na Austrália e na Coreia do Sul.
Operação do transporte público no 2º turno motiva ordem de prisão e acionamento do TSE na Bahia
Retenção da frota de ônibus em Salvador leva a decisão judicial contra secretário municipal e pedido de extensão do horário de votação em três municípios baianos
Anulação do 2º turno possível, diz professor
Fernando Neisser, da FGV, aponta desigualdade entre seções após extensão de horário do STF
Carregando..