Suspeita da PF contra Mendonça agita o STF

Ministro anônimo afirma que gabinete do relator do caso Master deveria se preocupar com possível operação de desmoralização
Por: Brado Redação 04.set.2026 às 08h41
Suspeita da PF contra Mendonça agita o STF
Reprodução / STF

Um clima de forte desconfiança toma conta do Supremo Tribunal Federal. Colegas de toga avaliam que pode estar em curso uma apuração irregular da Polícia Federal dirigida ao ministro André Mendonça e à equipe que o assessora. A hipótese, considerada grave por integrantes da Corte, surge no interior de um inquérito instaurado a pedido da defesa de Lulinha. O procedimento busca esclarecer vazamentos de conversas de Roberta Luchsinger envolvendo o filho do presidente da República e o antigo chefe de gabinete conhecido como Marcola.

Em circunstâncias ordinárias, uma instituição como a Polícia Federal dificilmente seria associada a diligências clandestinas. Porém, um ministro do STF, que pediu para não ser identificado, observou que o país atravessa um período excepcional. Segundo ele, o gabinete de Mendonça tem motivos para ficar em estado de alerta. O mesmo magistrado declarou que, se ocupasse aquela cadeira, também se sentiria inquieto.

A leitura que circula nos corredores do tribunal é de que se tenta fabricar elementos capazes de atingir a credibilidade de Mendonça na condição de relator das apurações ligadas ao Banco Master. Esse movimento, na avaliação de parte dos ministros, favoreceria um grupo interno interessado em reduzir o impacto de informações sobre negócios mantidos pelo banqueiro Daniel Vorcaro com o ministro Alexandre de Moraes.

A decisão de Moraes que determinou a Edson Fachin a análise de eventuais ilícitos atribuídos a Mendonça funcionou como um estopim. O documento revela que o relator do inquérito das fake news tomou conhecimento de relatórios de inteligência que mencionam integrantes do próprio Supremo. A notícia repercutiu com intensidade no tribunal porque sugere a existência de levantamentos feitos à margem dos canais oficiais. Outro ministro classificou o episódio como extremamente grave.

No despacho, Moraes registra que os relatórios de inteligência apontam condutas de Mendonça, no exercício da relatoria das PETs 15041 (Operação Sem Desconto) e 15556 (Operação Compliance Zero), que poderiam configurar improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e abuso de autoridade. O texto menciona ainda possível quebra de imparcialidade e favorecimento a determinados grupos políticos. Para vários integrantes da Corte, essa formulação equivale a um reconhecimento de que a Polícia Federal teria investigado o ministro de forma irregular.

É público que o gabinete de Mendonça conta com delegados da PF em sua equipe. Essa presença tem despertado atenção tanto na corporação quanto no governo e no próprio Supremo. Nesta quinta-feira, circulou a informação de que o presidente da Corte, Edson Fachin, teria sido aconselhado a extinguir a lotação de delegados nos gabinetes dos ministros.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já fez pronunciamentos criticando delegados que atuam fora da estrutura formal da Polícia Federal. Essas declarações geraram atrito com Mendonça. A situação não se agravou ainda mais porque o ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, interveio para acalmar os ânimos e porque o ministro da Justiça, Wellington Silva, recusou-se a formalizar qualquer medida que removesse os delegados do Supremo.

O conjunto desses episódios alimenta a percepção de que o tribunal vive um momento de confronto interno. De um lado, a relatoria de Mendonça no caso Master. De outro, o interesse em preservar ou questionar as relações entre Vorcaro e Moraes. No meio desse impasse, ganha força a tese de que relatórios de inteligência teriam sido produzidos sem o devido respaldo institucional, o que, se confirmado, representaria uma ruptura grave nas regras que deveriam reger as relações entre a Polícia Federal e o Supremo.

Ministros ouvidos sob reserva reiteram que o gabinete de Mendonça precisa acompanhar com atenção qualquer movimento que possa ser interpretado como tentativa de constrangimento. A preocupação não se limita ao ministro titular. Alcança também os delegados que integram sua assessoria e o próprio equilíbrio institucional da Corte. A recomendação feita a Fachin para encerrar a presença desses servidores nos gabinetes é vista como mais um sinal de que o tema deixou de ser apenas interno e passou a envolver cálculos políticos mais amplos.

A origem da suspeita remonta ao inquérito sobre os vazamentos das mensagens de Roberta Luchsinger. Foi nesse procedimento, aberto a pedido da defesa de Lulinha, que teriam surgido os elementos agora usados para questionar a atuação de Mendonça. O fato de a Polícia Federal manter agentes no gabinete do relator do caso Master torna o cenário ainda mais delicado, porque mistura funções de investigação com o cotidiano de um ministro que conduz apurações sensíveis.

A decisão de Moraes, ao citar expressamente os relatórios de inteligência e ao encaminhar o exame de possíveis crimes a Fachin, colocou o tema no centro do debate interno. A menção a leis específicas — a de improbidade administrativa, a de crimes de responsabilidade e a de abuso de autoridade — reforça a gravidade atribuída às condutas descritas. Colegas de Mendonça interpretam o documento como indício de que apurações teriam ocorrido sem o conhecimento formal da Corte.

Enquanto isso, o governo federal observa o desenrolar dos acontecimentos. A recusa de Wellington Silva em assumir pessoalmente qualquer operação de afastamento dos delegados e a atuação de Jorge Messias para evitar uma crise aberta mostram que o Executivo também calcula os riscos de um choque direto com o Supremo. Lula, ao cobrar publicamente a regularização da situação dos delegados que atuam fora da PF, acabou por tensionar ainda mais as relações com Mendonça.

O resultado é um ambiente em que cada nova informação é lida sob a ótica da disputa de narrativas. A possível existência de investigações clandestinas contra um ministro relator de um caso de grande repercussão política e econômica é tratada por parte da Corte como um fato que ultrapassa o limite do aceitável. Outros integrantes preferem aguardar os desdobramentos da análise que Fachin deverá fazer.

Independentemente do desfecho, o episódio já deixou marcas. A presença de delegados nos gabinetes, as declarações presidenciais, a intervenção da AGU e a recusa do Ministério da Justiça formam um quadro de instabilidade que raramente se viu com tanta clareza no Supremo. Mendonça, na condição de relator do caso Master, tornou-se o ponto de convergência dessas tensões.

A avaliação de que existe uma operação destinada a produzir fatos capazes de desacreditar o ministro ganha força justamente porque coincide com o interesse de setores da Corte em minimizar as revelações sobre os negócios de Vorcaro com Moraes. Nesse contexto, os relatórios de inteligência citados na decisão de Moraes funcionam como peça central da controvérsia.

Um ministro chegou a afirmar que o gabinete de Mendonça deveria se preocupar. A frase, dita sob anonimato, resume o estado de espírito que predomina no tribunal neste momento. Não se trata apenas de uma divergência jurídica. Trata-se de uma disputa que mistura apuração criminal, relações institucionais e cálculos políticos.

A Polícia Federal, instituição que tradicionalmente goza de prestígio, vê seu nome associado a suspeitas de diligências irregulares. O Supremo, por sua vez, enfrenta o desafio de preservar a imagem de imparcialidade em meio a acusações cruzadas. Mendonça permanece no centro desse impasse, enquanto Fachin recebe a incumbência de avaliar se as condutas descritas nos relatórios configuram ilícitos.

O desfecho ainda é incerto. O que já está claro é que o Supremo atravessa um período de tensão inédita, no qual a suspeita de uma investigação clandestina contra um de seus ministros deixou de ser mero rumor de corredor e passou a ocupar o centro das discussões internas.



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