Brasileiros relatam prejuízos com quebra de banco no Paraguai

Empresário perde acima do teto de garantia, cambista fica sem reservas de férias e dono de oficina tem capital afetado em meio à liquidação do Ueno
Por: Brado Redação 06.nov.2026 às 09h57
Brasileiros relatam prejuízos com quebra de banco no Paraguai
Reprodução

A crise bancária e política que atinge o Paraguai nos últimos dias também alcançou brasileiros residentes no país. Relatos incluem um empresário com perda superior a R$ 200 mil, uma cambista que ficou sem o dinheiro economizado para as férias e um dono de oficina que perdeu parte do capital de giro. O Ueno Bank, com cerca de 3 milhões de clientes — aproximadamente 60% da população adulta paraguaia —, foi liquidado pelo Banco Central. Dois dias depois, nesta quinta-feira (5), o presidente Santiago Peña anunciou sua renúncia. Segundo estimativas do Itamaraty, cerca de 270 mil brasileiros vivem no país, que faz fronteira com Mato Grosso do Sul e Paraná.

A liquidação ocorreu na terça-feira (3), depois que o índice de solvência da instituição digital caiu para menos da metade do mínimo exigido por lei. O rombo tem origem em empréstimos a empresas ligadas ao próprio banco, que comprometeram os recursos e deixaram milhares sem acesso ao dinheiro. Peña, que já foi acionista de empresas do grupo controlador do Ueno, anunciou a saída do cargo dois dias após a intervenção. A Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade o avanço do processo de impeachment.

Marcelo Bernard, de 26 anos, mora há dois anos no Paraguai e tem uma oficina em Presidente Franco, na tríplice fronteira. Ele perdeu cerca de 5 milhões de guaranis, o equivalente a R$ 4,5 mil. O impacto foi menor porque, segundo ele, ainda há cultura de pagamento em dinheiro vivo no país, e ele mantinha o capital de giro na carteira. Bernard descreve um clima de forte revolta e raiva direcionado ao presidente e aos políticos. Em uma sociedade conservadora e firme, as pessoas exigem punição rigorosa aos responsáveis.

Pedro Treméa, de 61 anos, tem empresa de refrigeração em Ciudad del Este, também na fronteira. O valor perdido no Ueno superou o teto do Fundo de Garantia de Depósitos, que cobre até 228,3 milhões de guaranis por pessoa e por instituição — cerca de R$ 200 mil, equivalente a 75 salários mínimos. Acima desse limite, a recuperação depende do processo de resolução do banco. Cliente desde a época do Banco Visión, incorporado pelo Ueno em 2021, ele usava a conta principalmente para o capital de giro. Como diversificava instituições e usava o sistema de transferência instantânea similar ao Pix, o impacto foi limitado. Todos os funcionários da empresa tinham conta no Ueno, atraídos pela facilidade de abertura digital e pela oferta de cartões. A cotação do dólar subiu de 5.900 para 6.500 guaranis em 24 horas em meio à especulação. Treméa não especificou o valor exato da perda, mas disse que a crise afeta diretamente o negócio, já que importa produtos do Brasil e opera em dólares ou reais.

Dalma Morinigo, de 31 anos, mora há quatro anos em Ciudad del Este e trabalha em uma casa de câmbio. Tinha o equivalente a mais de R$ 7 mil no Ueno, reservados para as férias de fim de ano, e usava a conta para receber pagamentos de clientes. Correntista há quase dois anos, escolheu a instituição pela facilidade de abertura, serviços digitais e presença de caixas eletrônicos. Dias antes da liquidação, o banco oferecia campanha de reembolso de 50% de determinados valores, o que, segundo ela, incentivou clientes a não retirar o dinheiro. Surpreendida pela notícia, tentou acessar o aplicativo e viu que o saldo não aparecia mais e que não conseguia realizar operações. “Não há muito a ser feito, temos que esperar. Dizem que até em cinco dias iremos receber, mas não acredito muito nisso”, afirmou.

Diante da crise, Peña anunciou acordo com líderes do Congresso para acelerar a votação de projeto que permite usar recursos do Fundo de Garantia para ressarcir clientes. A medida deve garantir a devolução de recursos públicos depositados, incluindo valores do Instituto de Previdência Social e de outros fundos. Na quarta-feira (4), ele promulgou lei para que os clientes recuperem os recursos mais rapidamente. Afirmou que responsáveis por eventuais irregularidades deverão responder à Justiça, sem exceções, e pediu que todos os setores políticos coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro.



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