PF investiga desvio de emendas para filme ‘Dark Horse’

Operação Make Up apura possível uso irregular de recursos públicos relacionados à produção do longa sobre Jair Bolsonaro.
Por: Brado Redação 10.set.2026 às 07h59
PF investiga desvio de emendas para filme ‘Dark Horse’
Reprodução

A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (10) uma operação para investigar o desvio de recursos públicos que teriam sido destinados à produção do filme “Dark Horse”, ainda não lançado e inspirado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A ação, denominada Make Up, é realizada em parceria com a Controladoria-Geral da União (CGU) e cumpre 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e no Distrito Federal. Não foram expedidos mandados de prisão.

Entre os alvos estão a produtora Karina Gama e o deputado federal Mario Frias (PL-SP). Duas instituições ligadas à produtora também são alvo das buscas: o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC).

O caso está sob responsabilidade do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). A investigação começou em São Paulo, mas foi encaminhada ao Supremo.

Segundo a Polícia Federal, a apuração identificou indícios de uma organização criminosa formada por agentes públicos e particulares. O grupo teria direcionado recursos provenientes de emendas parlamentares para uma organização da sociedade civil e, posteriormente, para empresas subcontratadas de maneira irregular.

Os investigadores também analisam se os serviços pagos com os recursos foram realmente executados. A suspeita é de que parte das contratações não tenha sido acompanhada de documentação capaz de comprovar a realização das atividades.

A PF afirma ter encontrado movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas relacionadas ao esquema. De acordo com os investigadores, mecanismos destinados a ocultar os recursos teriam continuado até julho deste ano.

A apuração envolve suspeitas de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes relacionados a licitações.

O longa “Dark Horse” também aparece em uma segunda investigação no Supremo Tribunal Federal. O procedimento conduzido pelo ministro André Mendonça examina transferências realizadas pelo empresário Daniel Vorcaro e procura esclarecer o caminho percorrido pelos valores destinados ao projeto.

Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, está preso. Em maio, mensagens e um áudio vieram a público mostrando uma suposta cobrança de recursos feita pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) ao empresário para financiar o filme sobre seu pai.

Segundo as informações reunidas na investigação, os repasses teriam alcançado pelo menos R$ 61 milhões em 2025.

Os recursos teriam sido encaminhados para um fundo nos Estados Unidos administrado por Paulo Calixto, advogado ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio.

Na quarta-feira (9), André Mendonça homologou o acordo de colaboração premiada de Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro.

O empresário é proprietário da Entre Investimentos, empresa que teria realizado transferências relacionadas ao financiamento de “Dark Horse” por determinação de Vorcaro.

Em seu acordo com a Procuradoria-Geral da República (PGR), assinado em 8 de agosto, Mineiro apresentou informações sobre operações financeiras realizadas no exterior.

O empresário declarou que era responsável por providenciar dinheiro em espécie para integrantes da estrutura de Vorcaro. Segundo seu relato, os valores eram entregues em malas e teriam como finalidade o pagamento de propina.

Mineiro também afirmou ter realizado sete transferências classificadas como “subscrições de cotas” para o fundo Havengate, nos Estados Unidos. As operações ocorreram entre janeiro e setembro de 2025 e somaram US$ 12,333 milhões.

Pela cotação registrada em setembro do ano passado, o valor correspondia a aproximadamente R$ 62,8 milhões.

A subscrição de cotas ocorre quando um fundo emite novas participações para aumentar seu patrimônio e recebe aportes de investidores. Nesse caso, as operações foram feitas pela Entre Investimentos após solicitações atribuídas a Vorcaro.

De acordo com o depoimento de Mineiro, o primeiro contato com Vorcaro ocorreu entre o final de 2024 e o início de 2025. Ele teria recebido pelo WhatsApp a orientação para enviar recursos ao exterior por meio de subscrições no Havengate.

O empresário afirmou que, até aquele momento, não conhecia o fundo.

A primeira solicitação teria sido de aproximadamente US$ 24 milhões, que seriam distribuídos em mais de dez operações entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. No entanto, somente sete transações foram efetivamente realizadas.

Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro de 2025.

Entre as operações realizadas está uma transferência de US$ 1,666 milhão em setembro de 2025. O pagamento ocorreu depois de maio, contrariando declarações anteriores de Flávio Bolsonaro de que aquele teria sido o último repasse feito por Vorcaro.

Mineiro entregou às autoridades documentos relacionados às transferências. O material inclui comprovantes dos pagamentos e mensagens trocadas por e-mail com Paulo Calixto, responsável pela administração fiduciária do fundo Havengate e advogado ligado a Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Segundo o empresário, no começo de 2025 foram iniciados contatos por e-mail para formalizar as operações. Em janeiro, a Entre Investimentos teria assinado uma “Letter of Agreement”, documento que previa mais de dez subscrições de cotas do Havengate Development Fund.

Mineiro relatou que, antes de cada uma das operações seguintes, recebia instruções de Vorcaro por WhatsApp. Depois disso, providenciava a formalização da subscrição e o pagamento correspondente.

O empresário, entretanto, declarou que não sabia qual seria a destinação final dos valores depois que chegavam ao fundo.

Essa questão é uma das linhas investigadas pela Polícia Federal. Os investigadores procuram determinar se todo o dinheiro enviado ao Havengate foi empregado na produção de “Dark Horse”, conforme afirmam Flávio Bolsonaro e a produtora Go Up, ou se parte dos recursos teve outra finalidade.

Uma das possibilidades analisadas é que uma parcela do dinheiro tenha sido utilizada para financiar atividades de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

O acordo de colaboração também menciona pagamentos internacionais realizados por Mineiro a pedido de Vorcaro.

Segundo o empresário, algumas dessas operações ocorreram por meio da Entre Investiments and Arbitrage Ltd., empresa sediada em Nassau, nas Bahamas.

Nesses casos, Vorcaro teria encaminhado “invoices”, ou faturas, indicando os pagamentos que deveriam ser realizados. Mineiro afirmou não ter detalhado quem eram os beneficiários finais dessas operações.

A Polícia Federal também verifica se recursos mantidos em estruturas financeiras no exterior, incluindo valores relacionados às Bahamas, foram posteriormente direcionados ao fundo Havengate ou a pessoas ligadas a ele.

A análise dessas movimentações pode ajudar os investigadores a estabelecer a origem e o destino dos valores relacionados ao financiamento do filme.

A produtora Go Up afirma que contratou uma auditoria independente para examinar as despesas de “Dark Horse”. O trabalho, concluído em junho deste ano, apontou que as contas da produção estariam regulares.

Os documentos usados na auditoria, porém, não foram divulgados integralmente. Entre os materiais que permanecem sem divulgação estão notas fiscais referentes aos gastos do filme.

Segundo a auditoria contratada pela produtora, o longa teve custo de R$ 75 milhões e foi financiado pelo fundo Havengate.

A investigação da Polícia Federal busca esclarecer a origem dos recursos utilizados na produção, o caminho percorrido pelo dinheiro e eventual relação entre as verbas públicas investigadas e os valores destinados ao filme.

As autoridades também procuram identificar todos os envolvidos nas movimentações e verificar se os recursos foram utilizados exclusivamente na produção cinematográfica ou tiveram outras destinações.

A defesa de Antonio Carlos Freixo Junior informou que não irá comentar o caso por causa do segredo de Justiça.

A assessoria de Flávio Bolsonaro, questionada sobre as declarações do colaborador, afirmou que os esclarecimentos sobre o assunto são prestados pela produtora Go Up, responsável por apresentar as informações financeiras do filme.



📲 Baixe agora o aplicativo oficial da BRADO
e receba os principais destaques do dia em primeira mão
O que estão dizendo

Deixe sua opinião!

Assine agora e comente nesta matéria com benefícos exclusivos.

Sem comentários

Seja o primeiro a comentar nesta matéria!

Carregar mais
Carregando...

Carregando...

Veja Também
Fachin suspende afastamento e reintegração de Andrei Rodrigues na PF
Presidente do STF anula, por ora, a liminar de André Mendonça e a ordem de Flávio Dino para interromper a guerra de decisões sobre o comando da polícia
PF manda ouvir Galípolo, Campos Neto e André Esteves no caso Master
Intimações de 3 de agosto pedem depoimento como testemunhas sobre a fiscalização do banco de Daniel Vorcaro; defesa de Campos Neto diz que ainda não foi notificada
Dino reintegra Andrei Rodrigues e Leandro Almada na PF
Ministro do STF afirma que afastamento cabe somente ao plenário e anula ato de Mendonça referendado pela Segunda Turma
Lula pede quebra total de sigilo nas investigações do Master
Presidente classifica o caso como o maior crime financeiro do país, critica vazamentos seletivos na eleição e fala após o impasse sobre o comando da Polícia Federal
Interpol oferece ferramentas de cooperação no desaparecimento de Allan e Ágatha em Bacabal
Irmãos de 4 e 6 anos seguem desaparecidos há oito meses; não há confirmação de que estejam entre 163 crianças resgatadas nos Estados Unidos
Delator do Master detalha remessas ao fundo do filme Dark Horse
Antonio Carlos Freixo Junior relata sete aportes de US$ 12,3 milhões no Havengate, a pedido de Daniel Vorcaro, e cita pagamentos pelas Bahamas
Carregando..