O governo de Donald Trump encaminhou ao Itamaraty um documento no qual cobrava do Brasil o compromisso de permitir que “dissidentes políticos” participassem das eleições de 2026. Fontes da diplomacia brasileira confirmaram o conteúdo nesta quinta-feira (17), após o pedido vir a público. Segundo esses interlocutores, a exigência foi apresentada durante as negociações relacionadas ao tarifaço anunciado pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros. Brasília rejeitou a demanda.
As fontes não informaram se Washington indicou quais seriam esses “dissidentes”. Até a atualização mais recente, também não havia pronunciamento oficial da Casa Branca sobre o episódio.
O documento apresentado pelos americanos pedia que o Brasil realizasse eleições presidenciais livres e justas em 2026 e não detivesse, prendesse ou restringisse de forma arbitrária a participação de opositores no processo eleitoral. Integrantes do governo brasileiro consideraram o ponto uma interferência em assunto interno. Parte deles relacionou a redação à situação do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado no ano passado por tentativa de golpe e impedido de concorrer. Essa interpretação, porém, não aparece de forma explícita no pedido descrito pelas fontes.
A lista apresentada pelos Estados Unidos continha 21 pontos e foi entregue em outubro de 2025 a uma missão brasileira em Washington, chefiada pelo chanceler Mauro Vieira. A maior parte das exigências estava relacionada a questões comerciais. O documento também trazia cobranças sobre liberdade de expressão, redes sociais e sanções financeiras. O material circulou como uma minuta preliminar e não tinha valor de acordo assinado.
Um comunicado conjunto divulgado após uma reunião entre Mauro Vieira, o secretário de Estado Marco Rubio e o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, em outubro daquele ano, não mencionou dissidentes políticos nem qualquer cláusula relacionada às eleições. O Itamaraty evitou comentar oficialmente o conteúdo da proposta quando foi procurado.
O episódio se soma a uma série de atritos entre os governos brasileiro e americano. Em julho de 2025, Trump assinou uma ordem executiva na qual afirmou que o tratamento dado a Bolsonaro comprometia, na avaliação de seu governo, a realização de um processo eleitoral livre e justo no Brasil no ano seguinte. Na mesma ocasião, o Tesouro americano aplicou sanções contra Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky, acusando o ministro de detenções arbitrárias, censura e processos politizados.
Lula e Trump se encontraram na Casa Branca em maio de 2026. Nas últimas horas, o presidente brasileiro afirmou que irá aos Estados Unidos para participar da Assembleia Geral da ONU e que pretende deixar claro ao presidente americano que não deve interferir no processo eleitoral brasileiro. “O Brasil só tem um dono e o dono do Brasil se chama povo brasileiro”, declarou durante um ato público.
Até o momento, o governo americano não detalhou publicamente a cláusula revelada nesta quinta-feira. O governo brasileiro, por sua vez, rejeita qualquer compromisso que condicione o calendário eleitoral a exigências externas.
As eleições presidenciais estão previstas para 2026 e seguem as regras estabelecidas pela legislação brasileira e pela Justiça Eleitoral.
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