Um relatório da Polícia Federal, com sigilo retirado na noite de quinta-feira (10), descreve uma sequência de movimentos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro nos dias que antecederam a Operação Compliance Zero. Segundo o documento, ele já tinha ciência da ação policial prestes a ser deflagrada e organizou a saída do país na véspera da prisão.
A divulgação do material ocorreu depois que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, determinou o levantamento do sigilo das principais apurações ligadas ao Banco Master. A medida atendeu a pedido feito horas antes pelo presidente da Corte, Edson Fachin, e passou a permitir o acesso a inquéritos, reclamações e petições do chamado caso Master.
Para a PF, a viagem marcada para a noite imediatamente anterior ao cumprimento dos mandados não pode ser tratada como coincidência. O ex-controlador do banco foi interceptado no aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino final aos Emirados Árabes Unidos. Em outro trecho do mesmo conjunto de informações, a corporação registra que a tentativa de embarque apontava para a Europa. A prisão ocorreu na noite de 17 de novembro de 2025. A primeira fase da operação foi formalmente deflagrada no dia seguinte, após decisão judicial favorável aos pedidos da polícia.
Cerca de dez dias depois, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região determinou a soltura de Vorcaro e de outros quatro executivos. Um dos pontos considerados na decisão, segundo a própria PF, foi o teor de uma reunião com o Banco Central. Em março de 2026, o banqueiro voltou a ser preso. Antes disso, em 27 de fevereiro, a Polícia Federal havia assinado novo pedido de prisão preventiva com base no panorama agora tornado público.
O relatório afirma que há “fortes elementos indicativos” de condutas de Daniel Vorcaro e associados voltadas a proteger o núcleo dirigente de uma organização criminosa. O texto cita conhecimento antecipado de atos processuais, articulações com interlocutores em órgãos de controle, planejamento logístico para deixar o país em janela próxima à deflagração das medidas, comunicações com autoridades e acompanhamento de procedimentos internos. Esse conjunto, segundo a PF, compõe o retrato dos “tentáculos” em estruturas públicas e privadas.
A cronologia montada pela polícia começa em 21 de outubro de 2025. Nessa data, Vorcaro registrou no aplicativo Notas os nomes de representantes da Polícia Federal que participaram de uma reunião reservada com o Banco Central. Para os investigadores, o apontamento indica acesso antecipado a informações reservadas.
Em 16 de novembro, dois dias antes da operação, uma nova anotação pergunta sobre eventual proximidade de um terceiro com o juiz federal Ricardo Soares Leite, responsável por autorizar medidas contra o banqueiro. Como o inquérito tramitava em sigilo, a PF trata o registro como reforço da suspeita de vazamento.
Na manhã de 17 de novembro, às 7h28, Vorcaro recebeu mensagens urgentes do advogado Walfrido Warde. Em seguida, alterou os planos. Às 8h48, informou que agendaria um voo saindo de Congonhas. A partir das 7h41, manteve conversa com o jornalista Diego Escosteguy sobre uma reportagem que seria publicada. Depois das 11h, recebeu o link da matéria e o encaminhou imediatamente a Warde. O texto jornalístico mencionava a existência de um inquérito na 10ª Vara Federal de Brasília.
No mesmo dia, Warde protocolou petição nessa vara pedindo acesso ao conteúdo da investigação e citou expressamente a reportagem como fonte. Ao longo das horas seguintes, banqueiro e advogado continuaram tratando do tema, com insistência em manter contato com o juiz do caso. Também em 17 de novembro surgiram elementos de que Vorcaro teria divulgado à imprensa a informação de que o Grupo Fictor teria interesse em adquirir o Banco Master.
Desde as 6h34 daquele dia, o ex-banqueiro manteve contato com os servidores do Banco Central Paulo Sérgio e Belline. Depois, os dois consideraram “fundamental” que ele falasse com o diretor Ailton Aquino. A reunião virtual foi articulada para a própria tarde. Vorcaro propôs 13h; Paulo Sérgio confirmou 13h15; Belline enviou o link às 13h35. Após o encontro, circulou reportagem sobre a venda do banco ao Grupo Fictor. A ausência de surpresa dos servidores, segundo a PF, sugere alinhamento prévio.
O documento afirma que Vorcaro, ciente da atuação policial iminente, teria se valido de servidores do Banco Central que lhe seriam subalternos — em razão do pagamento de vantagens indevidas — para forçar o encontro virtual no dia imediatamente anterior à operação.
Outro trecho do material enviado ao STF, com sigilo retirado por André Mendonça em 1º de setembro, registra troca de mensagens entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Os diálogos, segundo a polícia, indicam que o ministro discutia com o ex-dono do Banco Master a possibilidade de a PF deflagrar uma operação tendo o banqueiro como alvo. Em 15 de novembro de 2025, um sábado, Vorcaro perguntou a Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Quarenta e oito horas depois, na noite de 17 de novembro, ele foi preso.
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